segunda-feira, 18 de junho de 2018

Parabéns para a vida...

E tudo se fez silêncio, o tempo de calar finalmente chegou. Estranho. Acreditem, ela realmente gostou da novidade.

domingo, 18 de junho de 2017

Parabéns para mim...


gosto de aniversários
(sempre gostei)
 
não precisa bolo
 
festa
se tiver
ótimo
 
(nem sempre teve)
 
meu ano novo particular

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

CORRER, CORRER, CORRER


Saúde e paz, o resto a gente corre atrás
Foto: Lilla Ferreira
 
A máxima tão falada pelo jornalista Pedro Bial, quando apresentador do Fantástico, nunca foi tão verdadeira em minha vida. Ando correndo atrás de uma vida (quase) normal, e de uma rotina que me mantenha saudável, porque o tal do câncer não é brincadeira não. Bom, correndo atrás é eufemismo, mal consigo dar cinco voltinhas na pracinha perto de casa, mas já vejo certa regularidade na intenção, e comemoro a conquista. Todas as especialidades médicas que visitei nos últimos meses me receitaram atividade física, e quando vi não tinha mais jeito. Quando se tem mais gordura no fígado do que nos culotes, a coisa está realmente feia. Então corri atrás de fazer o que mais gosto. Comprar um livro! Escrito por um médico, vejam só a coincidência, um oncologista. Perfeito. Correr, do médico Dráuzio Varella (Companhia das Letras, 206 páginas) me conquistou logo no início, quando o autor faz um questionamento que também é meu. “Existe sofrimento mais atroz do que deixar a cama quente, no horário em que o sono é mais arrebatador, vestir o calção, a camiseta e calçar o tênis para sair correndo?” Para em seguida, comentar algo que sempre desconfiei. “Se ouço alguém dizer que acorda cheio de vontade para correr, nadar, pedalar ou levantar peso na academia, por educação fico calado, mas duvido que seja verdade”.
 
Como médico, ele lembra que a maioria de seus pacientes, quando passam da fase difícil, reassumem o cotidiano sem levar em consideração a saúde, bem ao qual só atribuímos valor se escasseia: “O que me choca é que, ao emergir restabelecida desse inferno, a pessoa que passou por tal suplício seja incapaz de andar míseros trinta minutos diários". Pronto, a carapuça caiu na minha cabeça e encaixou como uma luva. Adeus procrastinação. O jeito foi esquecer a fibromialgia, a fadiga pós quimioterapia+radioterapia, e correr para dar umas voltinhas na tal pracinha. 


Mas ainda tem mais, a cereja do bolo do texto de Dráuzio Varella, algo que já tinha ouvido em algum lugar: “Mulheres com câncer de mama enfrentam obstinadamente cirurgias mutiladoras que interferem com a autoimagem e a sexualidade, passam pelas náuseas, vômitos e o mal-estar da quimioterapia, perdem o cabelo, cumprem com rigor as sessões de radioterapia e os cinco anos ou mais de tratamento hormonal. Quando explico que andar trinta a quarenta minutos diários reduz em pelo menos 30% o risco de morrer por disseminação da doença, benefício semelhante ao da quimioterapia, ouvem atentas e juram que vão caminhar todas as manhãs. Juramento falso, conto nos dedos as que cumprem a palavra”.

Pronto, outra carapuça caindo na minha cabeça, dessa vez como uma pedra!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Eu tenho medo sim, e daí?



David Bowie no Brasil, início da década de 90


Quando seus ídolos começam a morrer, cai a ficha da finitude. Quando seus ídolos começam a morrer de câncer, tenho que confessar, cai a máscara da coragem. Ainda no final de semana estava vendo as matérias sobre o lançamento de seu novo álbum, “Blackstar”, que aconteceu no dia do seu aniversário de 69 anos, no sábado (8). Acordo hoje, segunda (11), e ligo a televisão para assistir aos telejornais, morreu David Bowie. Sonolenta, penso que entendi mal, mas é isso mesmo, morre o camaleão pop, depois de 18 meses de luta contra um câncer que eu nem sabia que o acometia. Imediatamente a memória afetiva viaja até o início da década de 90, a primeira turnê de Bowie no Brasil. Eu estava lá, lembro da sensação, um grande acontecimento. 
 
Mas a sensação logo depois é de finitude, de medo da morte. Da minha, das pessoas que amo, de desconhecidos. A morte é mesmo uma sacanagem, é o que acho. A única certeza da vida, sim, e acho que devíamos aprender a lidar melhor com ela, até mesmo falar mais sobre o assunto. Mas uma verdadeira sacanagem. Você está lá, com a vida cheia de compromissos, planos, e de repente morre! No meu caso, pouco mais de 20 meses na luta contra um câncer, quando a pior batalha já foi vencida, tenho que confessar. Todas as vezes que vejo a notícia de alguém que morreu por causa da doença, o coração balança. Tem sempre alguém tentando me consolar dizendo que vamos todos morrer. É verdade, vamos todos. Jovens, velhos, doentes, saudáveis, em algum momento da vida. Mas a questão é que, no caso de um diagnóstico desse tipo, a pessoa pega uma senha para ficar nos primeiros lugares da fila. E isso não é pessimismo, faz parte desse processo de aprender a lidar com o tema da morte, algo que não acontece apenas na ‘casa do vizinho’, e é o que nos faz correr atrás da vida e de tudo que dizem que pode contribuir para a prorrogação do jogo. E eu desafio alguém, nessa condição, a não sentir um pouco de medo! 

Até porque, é esse sentimento que te move, que te joga na vida com urgência. Quando a vida te vira do avesso, o desafio é descobrir quem é essa pessoa que surge depois do grande susto. Porque a vida não volta ao normal, ou não existe mais a antiga versão do que era ser normal. Quando se tem na rotina a visita ao oncologista, costumo brincar, a vida não é lá muito normal, não é mesmo?


quinta-feira, 18 de junho de 2015

Fica bem, minha querida!

Esse foi, sem dúvida, o melhor aniversário da minha vida. Temos todos nossos infernos particulares, e estar sobrevivendo ao meu, estar viva para comemorar mais um ano, é incrível. Razão para festejar. Mas esse é também, sem dúvida, um dos mais tristes. Acabei de saber que uma amiga querida se foi. Alguém que fazia parte da minha família do coração, do tipo que não é de sangue, mas de amizade e respeito pela vida um do outro. Ela fez parte de minha infância, adolescência, o tipo de amizade que você sabe, a distância física não faz diferença. Em janeiro do ano passado, ainda em fase de diagnóstico do meu câncer, escrevi aqui no blog sobre a coragem, logo depois de ganhar um livro de outra amiga querida, com esse título. A Eliana, é esse o nome da amiga que partiu, deixou um comentário carinhoso e encorajador na postagem. Falávamos sobre a magia de colocar para fora as emoções através da palavra. Ela também jornalista, aliás, acho que a primeira jornalista que conheci, entendeu perfeitamente a minha necessidade de ‘falar’, algo que para alguns era muita ‘exposição’. Acontece que logo depois, acho que na minha segunda cirurgia, ela também foi diagnosticada com câncer. Trocamos figurinhas, nos apoiamos mutuamente. E o carinho dela por mim foi tão grande, que quando as coisas começaram a não dar muito certo com o seu tratamento, chegou a dizer que não queria “me contaminar”, imaginando que seus resultados podiam me assustar. Em um de seus últimos emails ela me disse: queria de alguma forma te confortar, porque sei o que está passando. E era isso, conversar com ela me acalmava, porque sabia que talvez fosse a única a me entender de verdade! Hoje me despeço, com uma frase de adeus que é sua, Eliana. Mas que agora também é minha: Queria poder te ver, te dar um abraço...Fica bem, minha querida!

Querida Maria...
Como você, eu também gosto das palavras. E me maravilho diariamente com o imenso poder que elas têm: o poder de curar, o poder de ferir, o poder de acalentar e de seduzir. Impossível contar as inúmeras vezes vezes em que eu fui salva pelas palavras: de um parente distante, de um amigo querido, de uma música marcante, de um autor preferido... E também as vezes em que elas me cortaram feito faca afiada, feito caco de vidro. Como você, também já fiquei sem palavras. Algumas vezes por susto, outras por medo, e muitas vezes por elas terem se emaranhando na hora de expressar o tumulto, a revolução que se passava dentro de mim. Mas mais do que tudo, as palavras sempre foram o meu porto seguro, o meu refúgio, a minha canoa em meio ao mar revolto.

Espero muito que as palavras que vão chegar até você, vindas de todo mundo que te ama, te ajudem a navegar esse seu mar revolto, e te conduzam à terra firme. Que a palavra coragem te reforce, que a palavra paciência te acalme, que a palavra carinho de aconchegue. E que nessa fase de dúvidas e medos e incertezas, você se cerque somente das palavras bonitas - sorriso, brisa, flor, ternura, esperança, amor.

Beijo,
Eli Fajardo



domingo, 22 de março de 2015

Câncer – e agora?

Como lutar contra a doença sem deixar a vida de lado



Encontrei esse livro por acaso, numa das minhas rápidas escapadas pós-quimioterapia. Cada pessoa tem um modo de lidar com a vida e seus problemas. O meu, na maior parte das vezes, é mergulhando de cabeça em todo tipo de informação ou referência sobre a coisa em questão. E sim, não fiquei (mais) melodramática por causa da doença, nem mesmo me tornei uma pessoa melhor ou mais religiosa. Mas quer saber? Muda tudo, sim, de verdade. Algo que penso acontecer sempre que nos sentimos confrontados. Não acho que seja preciso ter câncer para aprender essa lição. Entretanto, às vezes, os momentos trágicos nos obrigam a pensar nas prioridades imediatas e ficar alerta. E aí está o grande barato.

Li muita coisa sobre o assunto, mas poucos textos me causaram tanta identificação como esse livro “Câncer - e agora?” (Editora Globo, 2007, 202 páginas) da fotógrafa e atriz americana Kris Carr. De cara ela me diz “o saldo que fica é o seguinte: mesmo que o câncer desapareça, a lembrança de que ele existiu permanece, a lembrança de que ele existiu permanece – e o medo de que ele retorne também”. Perfeito para quem acabava de voltar a trabalhar, procurou a vida de antes e não achou! O medo faz parte da vida, e convive diariamente com minha fé. Que alívio me reconhecer nessa frase. E em tantas outras. Ninguém controla a própria vida, mesmo que pense o contrário.

São memórias que quero guardar para sempre. Olho para as ‘tatuagens deixadas pelo câncer e me recordo de que essa história me transformou e me obrigou a ampliar meus horizontes. Sou grata por isso.” Kris, que tem um câncer de fígado incurável, é ácida, bem-humorada, realista e divertida. Tudo junto e sem aquele blá-blá-blá do politicamente correto que costuma acompanhar os textos sobre o assunto. E se você conseguir exorcizar o demônio da desgraça vai se divertir e identificar com a grande maioria dos seus relatos

Esse foi o primeiro livro que li quando consegui voltar a respirar. Fiz algumas tentativas durante a fase negra, mas era muito, muito difícil conseguir me concentrar na leitura. Ainda estou aprendendo a lidar com a minha dificuldade de compreensão e concentração, sequelas da quimioterapia que pode, em alguns casos, comprometer as funções cognitivas. Por isso essa foi também a primeira vez que levei semanas para terminar de ler um livro. Vida nova, sim senhor. 

Blog da Kris: www.crazysexycancer.com 

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Começar de novo...

Foto: Helder Pinto, companheiro de 'caminhada'

E não é assim todo dia? Aqui estou na armadilha do ‘mimimi’, tentando achar explicação para esse desconforto de estar de volta a uma vida ‘normal’. Acontece que não se volta ao que existia, mas assim acontece todos os dias. No meu caso um grande sofrimento, mas os pequenos também têm a mesma lógica. E a dor, meu amigo, é sempre maior quando pisam no seu calo. Empatia aproxima, conforta, mas não torna as coisas mais fáceis, não necessariamente. Não corro atrás da tal felicidade, quero é ter gosto na vida. Que venham os dias, um atrás do outro. Só por hoje, vou ficar bem.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Feliz, ano novo

Adoro a energia do final do ano. Luzes coloridas, festas e uma alegria que às vezes beira o histerismo. Tem também o surto de generosidade que acomete uma boa parte das pessoas, mas essa já é outra estória. Sei que gosto mesmo é dessa sensação de cruzar um marco imaginário no tempo, e (re)começar de novo. Sei que vez por outra um furacão metafórico me arrasta pela vida. O último chegou no finalzinho de novembro de 2013, quando resolvi acompanhar minha irmã a uma consulta com a pneumologista que lhe salvou a vida faz bem pouco tempo. Não tenho problemas respiratórios, não fumante, histórico zero para a especialidade, mas havia a possibilidade de encontrar um problema de apneia, que minhas irmãs têm e que pode causar fadiga, uma vez que o sono é interrompido várias vezes durante a noite. A polissonografia mostrou que a apneia era leve, o ronco é que era pesado, como pode uma pessoa roncar mais de 400 vezes em menos de 8 horas de sono? Bom, voltamos ao ponto de origem, o cansaço, a tal da fadiga crônica. Sabia que tinha algo de muito errado no meu corpo. E sim, a fadiga já era um sinal do câncer. O zelo da médica ao pedir também uma tomografia do tórax, só para ‘checar’, pode ter salvado a minha vida. Feliz por estar aqui, mais um ano, que venha 2015.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

No olho do furacão

 
Foram dias, meses, quase um ano girando. É exatamente assim que sinto-me neste momento. A cabeça ainda está meio zonza, mas tenho certeza que me colocaram a girar dentro de uma máquina de lavar. Acho que devo agradecer a sorte de não ter sufocado, afogado ou coisa parecida. Agora é firmar o olhar nessa janelinha, criar coragem para dar os primeiros passos e cair fora. A vida não espera.
 


sábado, 23 de agosto de 2014

FIM (uma escritora entra em cena)


No mais puro estilo São Tomé, aquele que precisa ver (ler) para crer. Foi assim que olhei pela primeira vez para o livro de Fernanda Torres, em sua estreia no mundo da ficção. O título é Fim (Companhia das Letras, 2013, 203 páginas), mas ele trata mesmo é da vida. Uma boa surpresa, do tipo que te faz feliz por estar redondamente enganada. Confesso que desconfiei de tantas críticas e comentários positivos, acreditando que tinha influência da emissora, da mãe famosa. Mas não, a Fernanda que desfila pelas páginas do livro é outra, tão boa quanto à atriz, de quem gosto muito, mas é uma outra voz. Segura, engraçada, inteligente e nem um pouco politicamente correta. Ela escreve livremente, dando a sensação de que não escreve para agradar, mas para se divertir. E olhem que fazer isso quando todos os seus principais personagens morrem, não me parece fácil. Ela fala do “fim”, mas é a vida que transpira em cada página.